Cansaço

A hora do cansaço


As coisas que amamos,

as pessoas que amamos,

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.


Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.



Do sonho de eterno fica esse gosto acre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.


Carlos Drummond de Andrade



Chega uma hora na vida, ou no dia, ou na semana em que todos nos cansamos. Cansamos de tudo. De pensar, de sorrir polidamente, de falar calmamente e de viver nossas vidas.

É aquela hora do dia em que se sente vontade de sumir, inexistir, morrer.

Hoje é um desses dias.

Talvez nossas almas tenham um certo limite. Talvez esse limite seja regulado pelo tédio e pelo número de frustrações que podemos suportar num determinado período de tempo. E o tempo é uma outra abstração.

Esgotado, o ser é apenas mais um frasco vazio de vida, sem forças, sem disposição, sem vontade. Apenas tédio. Apenas desistência.

Onde se esconde a vontade juvenil de mudar o mundo? em qual parte de nossa essência essa fugidia chama de coragem e vontade divina se perde?

Ninguém cuja força de vontade se perca em meio aos problemas diários pode, de fato, mudar o mundo.

E como mudar o mundo trabalhando oito horas diárias e estudando mais quatro? Como tentar fazer com que outros acordem para a realidade que vivemos tendo responsabilidades que ocupam noventa por cento de nosso tempo?

Filhos, família, religião, estudo. Agradar os pais, os irmãos, os patrões. Viver a vida segundo regras elaboradas por outros. Até que ponto isso dá futuro ao sujeito?

Por isso o sujeito se cansa. Cansa de buscar e não encontrar alternativas. Cansa-se de viver a vida sem novas possibilidades, pois cada parte da sua essência exige algo diferente de sua vida, e esse algo muitas vezes não é possível de se obter.

E na hora do cansaço, somos todos iguais.

Quando nada faz sentido, qualquer caminho serve.



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